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Hoje deu uma vontade de escrever… (…um pouco mais que o de costume!)

E falar daquelas vontades de mudar o mundo. Daquelas que a gente quer compartilhar. Porque hoje eu ajudei - ainda que pouco - um movimento que precisa ser mostrado para mais gente. Porque a gente precisar mudar. Sempre.

No começo eu achava que o comportamento das crianças era só “trabalho” de pais e mães. E apesar de não ser mãe, senti que existe uma mensagem que também é para mim. Porque eu acho que o mundo inteiro deve pensar em educação e futuro. E eu não sei a opinião de vocês, mas eu quero ficar “perambulando” muitos anos nessa vida… E só consigo ver “futuro” acompanhado de “educação”.

Adoramos consumir, comprar, ter uma vida confortável… E adultos responsáveis que somos, temos que ensinar aos pequenos o valor de cada coisa. A importância de SER acima do TER. Até pouco tempo, convivi muito com crianças (primeiro por ser louca por elas e depois pelo prazer de dar aula para essa gente miúda); vejo o quanto elas são influenciadas (por diversos fatores, obviamente, não somente pelas propagandas na TV) e reproduzem esse comportamento louco de comprar, comprar, comprar… Minha intenção não é discutir ou apontar quem é culpado. Porque acho que a responsabilidade de dar bom exemplo é de todo mundo: do pai, da mãe, dos amigos, da escola, das empresas, do Estado… Mas, vamos combinar: apesar da gente adorar publicidade, anunciar para crianças não é certo. A influência da mídia junto ao poder do mercado é massacrante.  

Muito além de me sensibilizar ainda mais com um cliente, me sensibilizei com uma causa, que cada vez mais vem ganhando meu respeito. Uma das bandeiras levantadas pelo Projeto Criança e Consumo, do Instituto Alana, é a regulação da publicidade dirigida ao público infantil. Durante um protesto realizado hoje, foram divulgados dados de uma pesquisa que só reforça a grande parcela de responsabilidade que a publicidade tem em estimular padrões de consumo exagerado nas crianças e outros comportamentos, como ingerir alimentos não-saudáveis e bebidas alcóolicas, por exemplo.

Profissionalmente, geramos notícias todos os dias: por ofício, por prazer e pelo comprometimento com algo, com alguém. Quem trabalha com comunicação sabe melhor do que ninguém como pode influenciar pessoas. E por isso eu vim aqui divulgar esse link www.consumismoeinfancia.com numa tentativa discreta de “bem” influenciar.

Porque da minha condição de jornalista e de gente, eu acredito que podemos ser pessoas melhores, and raise better “little beings”.

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Amar, dói?

Pais, filhos e desilusões…

Quando somos pequenos, somos uma esponjinha. Sugamos o amor da mãe, do pai, dos tios. Precisamos de carinho, de atenção. É um amor exacerbado, que a gente não sabe ainda o que é, mas se agarra nele com um choro, com um abraço apertado de saudade que mal cabe nas nossas mãos, com um olhar pidão do medo do escuro, de dormir com a luz apagada, de acordar num domingo de manhã e não encontrar ninguém p/ contar do pesadelo que teve na noite passada.

Na infância, o amor é assim: a gente chora sem saber porque a plantinha morreu, porque o cachorro de estimação da família foi levado “pra uma fazenda onde só cachorros vivem” e nunca mais voltou pra casa, porque o pai ou a mãe foi embora. O amor que a gente aprende, é aquele que lemos nos contos de fadas, onde tudo é perfeito e sempre tem um final feliz. Embora o amor que a gente sente, é diferente. E o que é pior - só descobrimos o que é o amor, com uma dor.

O amor é tanto, que os pais protegem, escondem, simulam de tudo para as crianças ficarem longe da verdade o máximo que der. Porque a verdade é que amar, também dói. A gente ama, se apega, e num dia como outro qualquer, a vida acontece. Um dia você descobre que não existe papai noel. Que aquele bichinho de estimação não vai voltar porque já morreu. (Já tentaram explicar o que é morte a uma criança? É assustador.

Outra hora você olha pro lado, sentado na cadeirinha do carro e vê uma criança da sua idade pedindo esmola no sinal como mesmo olhar pidão que você. O que aquela criança queria não era dinheiro, era amor. Como é que você explica a uma criança que existem outras, diferentes dela, que dormem na rua, que passam fome, que elas não têm um pai ou uma mãe que a leve de carro pra uma escola? 

As primeiras desilusões amorosas acontecem na infância. E são as mais dolorosas. A gente não têm conhecimento suficiente pra entender o rumo natural das coisas. Os adultos explicam cada coisa de um jeito, fica difícil saber em quem confiar. E quando você descobre que alguém como um pai ou uma mãe mentiu p/ você porque “queria te proteger”, é o pior das coisas. A gente confia, acredita, e quando a verdade vem à tona, dói.

Irmãos, irmãs e egoísmo…

Vamos crescendo e quase que de repente temos que aprender a conviver com outros que até então você provavelmente não sabia que iam aparecer na sua vida: seus irmãos. O irmão menor quer toda a atenção que você teve, o carinho, o cuidado de todos e também quer também o SEU amor, é claro. Quer que você o ame e que entenda quando ele bagunce todos os seus brinquedos, afinal de contas, ele é menor, não tem juízo de certo e errado, e tudo se justifica. E você passa a aprender o que é egoísmo. Aprende que onde há amor, não pode haver egoísmo. Que dói ter de dividir, mas que quando se ama, o sacrifício vale a pena. 

Alguns se entendem, outros brigam o tempo todo. Mas como é que se pode brigar onde teoricamente só deveria haver amor? Minha mãe ama minha irmã, mas eu não amo tanto assim quando ela entra no meu quarto e destrói meu quebra-cabeças de mil peças ou a fazendinha de lego inteira que desde o meu aniversário vinha montando sozinho. Dá é ódio! É complicado crescer sendo o homenzinho da casa, ter de ser forte, não poder chorar (porque chorar é coisa de menina, né?) e ainda ter que assistir seu pai babando a irmãzinha caçula, que todos acham graciosa, mesmo se ela quebrar a porcelana inteira da sua mãe enquanto fazia uma coreografia de dança (que você provavelmente acha uma babaquice) na sala de jantar?

Amor de irmão é compartilhar. É ensinar. É ser exemplo. É não poder fazer nada errado, pois você sabe que vai ter dois olhinhos miúdos te fiscalizando o tempo inteiro e no primeiro deslize vai dedurar você pra mamãe. Mas é também contar segredos. Fazer peripécias juntos. Cumplicidade. E ainda assim, levar a culpa se o irmão mais novo apronta alguma e você sabe que ele vai se dar mal, mas, por amor, você assume a responsabilidade e leva umas palmadas do pai… De novo, a gente ama - dessa vez até mais consciente - e dói novamente.

Amigos e perdão…

Aí a gente faz amigos. Às vezes até mais amigos que nossos próprios irmãos. Grudados o tempo todo. Ouvimos as mesmas músicas, vestimos as mesmas roupas, fazemos a prova de matemática por ele (às vezes, ficamos juntos até na hora recuperação!), saímos às escondidas pra acobertar um namoro, pegamos o carro do pai escondido… Tudo em nome do amor. A gente ama aquela amiga, aquele amigo. É seu MELHOR amigo. A ÚNICA pessoa no mundo que parece que te entende. É um desespero de amor! 

Até que aquela sua melhor amiga conhece o Pedro. E assim, como num piscar de olhos, ela esquece de você e só fala no Pedro: em sair com o Pedro, que roupa vai sair pro cinema com o Pedro, se a cor do cabelo ou o corte que ela escolhe vai combinar com a blusa que ganhou do Pedro, e blábláblá, blábláblá. E o pior - nem te convida pra ir ao cinema com eles. Você se rói de ciúmes, se tranca no quarto, chora a tarde inteira, jura até que é inimiga mortal, pro resto da vida! 

Dez dias depois, o Pedro dá no pé. Arranja uma nova namorada e lá vem a amiga aos prantos chorar a dor de cotovelo pra você. Mais uma vez você amou e recebeu o que em troca? Desprezo. E agora? Aí lá vem o amor de novo e te ensina a perdoar. Doeu amar novamente. Mas que ama, perdoa. Ainda assim…

Homem, mulher e… ainda amor?

Você cresce e decide se casar. É a mulher da sua vida. A mais linda de todas, perfeita. Você passa seis meses no trabalho fazendo hora extra e junta o suficiente pra comprar aquele anel de noivado maravilhoso, que vai deixar ela sem fôlego! O casamento é cinematográfico. Você se endividou até o pescoço, mas saiu tudo como ela queria - até aquelas flores da igreja que custaram mais caro que a primeira parcela do apartamento! - mas tudo bem…

A lua de mel acaba. Passado algum tempo, vocês dormem, acordam, almoçam, arrotam juntos, tudo é lindo. Mas aí vocês começam a trabalhar 14hrs por dia pra manter o cubículo que compraram no bairro mais nobre da cidade. Num final de semana qualquer - quando vocês finalmente arranjam um tempinho na agenda pra jantar juntos - ela fala que vai querer o de sempre. Detalhe: você nem lembra mais o que ela come sempre. Não sabe se é camarão ou carneiro, e aí começa a discussão. 

E palavras (olha a novidade agora) - palavras dóem. Mas, você ama essa mulher. Como pode machucá-la?

Já grandinhos, sabemos o que é certo e errado. Sabemos do amor e quase todas as suas formas. Sabemos que podemos machucar, que podemos amar. Sabemos que um dia já fomos inseguros quando crianças, egoístas na adolescência, desprezamos e fomos desprezados, que já perdoamos, e tudo o que fizemos até hoje foi por amor. De um jeito ou de outro, aprendemos sobre o que é o amor quando um dia a gente amou, e isso machucou. Magoando ou sendo magoado, doeu. 

Mas porque será que até hoje a gente vive se reciclando e mascarando que amar, dói?

Talvez fosse mais prático saber desde o início. Talvez mudasse o ciclo. Talvez… mudassem as coisas.

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Notes

Coisa que se sente, coisa que se é

Quando me perguntam se sou feliz, na maioria das vezes eu sempre “estou”. Discorde do que eu penso mas, pra mim, feliz é um estado de espírito, passageiro, coisa se se sente, não que se é. É como um cargo numa empresa: você não É o gerente do supermercado da esquina, você ESTÁ gerente. A qualquer hora você pode perder o emprego ou mudar de profissão, basta um golpe dos acontecimentos naturais da vida. É normal.

Tudo está em constante mudança e se apegar às coisas (ou sentimentos) pra mim é um grande erro. Um dia desses conheci uma monja que falou isso pra mim e mais um grupo de almas inquietas buscando paz de espírito: “…doença, alegria, ignorância, inteligência, dinheiro, profissão, generosidade, tudo isso faz parte da gente. Tudo vai e volta, é nossa obrigação aceitar isso. Hora temos mais, hora temos menos. Depende do dia, da situação, da etapa de vida que a gente se encontra. O segredo está em não se apegar. No final das contas, a única coisa que existe de permanente em você, é você mesmo.”

Convenhamos, não dá pra ficar alegre o tempo todo. Tristeza faz parte. Quem ainda não percebeu isso e tenta ser feliz o tempo inteiro é um tolo.

Eu tenho a sorte de ter nascido numa família que me ama, ter feito amigos companheiros e um cara do meu lado que eu adoro encher o saco diariamente (um quase-herói, diga-se de passagem, que atura minhas bobagens e ri comigo no meio da noite, quando eu resolvo levantar as 4h da manhã com uma das minhas crises de insônia pra bater um papo com ele). Já viajei por aí, conheci pessoas fantásticas, entrei em êxtase quando senti o cheiro e o gosto de uma paella de verdade, trabalhei com tolos e uns outros até mestres que me ensinaram a dar valor a qualquer tipo de trabalho - seja ajudar no comando de uma grande equipe profissional ou simplesmente ajudar uma criança de 5 anos a escrever o nome dela pela primeira vez, mesmo com as letras todas espelhadas e embaralhadas, mas que faz um pequeno se sentir orgulhoso, cheio de entusiasmo. Não tenho do que reclamar, no geral, até agora tem sido a pretty damn good life

Mas isso aqui não é sobre mim. É sobre uma menina que conheci, e que tem me perturbado. 

Crianças sempre me deixam mais feliz. Mas com ela é diferente, tenho que engolir um nó na garganta sempre que lembro… Há três dias ela me entrega um desenho feito em sala de aula, colorido e cheio de detalhes, como todo desenho pra uma garota da idade dela: 12 anos. Mas quando ela levanta, é que eu percebo que ela não é tão gordinha quanto parecia. Ela está grávida. 

Foi um choque ver aquela menina ajeitando o casaco enquanto tentava disfarçar a barriga que já parece ter cerca de 3 ou 4 meses. Gelei na hora. Fiquei sem reação. Não conseguia desviar os olhos da barriga. Só quando ela sorriu e falou “a gente se vê na festa do halloween, professora!” eu caí em mim e retribuí um com um sorriso meio amarelo pra ela, acenando a cabeça como num sim. 

Fiquei tão perdida com aquilo, tão confusa. Era real e estava bem ali, na minha frente. Fiquei devastada naquele dia. Voltando pra casa me sentia revoltada. Pensava mil coisas ao mesmo tempo. Ela podia ter sido violentada… Mas podia também ter feito aquilo sem nenhum tipo de ameaça. Eu não sei dizer ainda o que é mais perturbador: imaginar que ela foi violentada ou encarar o fato de que ela pode ser uma criança sexualmente ativa aos doze anos! 

Que a vida é fácil pra uns e nem tanto para outros, todo mundo sabe. Aparentemente essa menina, a Clara, vem de uma família humilde, de baixa classe. Não tem muitas ambições e é extremamente tímida. Tem um sorriso triste nos olhos, daqueles que você percebe que é constante. Certamente não deve ter muitas razões para se sentir feliz na maior parte do tempo. Mas como é difícil encarar uma realidade que não estamos acostumados. Ver gente sofrer, gente sentir dor, lidar com a doença, com a pobreza, com a violência. Se aquela monja conseguiu desapego nesses quesitos, está de parabéns. Realmente é um ser iluminado. Deve sentir paz no coração quando deita a cabeça no travesseiro de noite. Mas eu ainda não cheguei lá. Fico me remoendo o tempo inteiro. Um sensação de impotência, de negligência, de falta de participação social… Me senti a mais inútil das pessoas. Um lixo. Talvez se eu, ou se você, fosse mais generoso de espírito ou mais engajado em mudar a situação de pessoas que não tem tantos privilégios, talvez isso não estivesse acontecendo. Talvez isso pudesse mudar. Talvez a Clara não estivesse esperando um filho aos 12 anos de idade. Talvez a gente pudesse ajudar a instruir, orientar e educar crianças que não têm isso dentro de casa. Dedicar um dia da semana (pelo menos) pra visitar bairros com famílias carentes, sei lá, fazer alguma coisa pra fazer alguma diferença - algo melhor! 

Eu sei que é difícil mudar e que o mundo em que muita gente vive - rodeado de violência e humilhação por todos os lados. É um mundo de gente que não tem um pedaço de pão pra comer à noite, e às vezes nem um teto pra dormir. É um mundo de gente que coloca o filho pra catar lixo na rua e ganhar uns trocados, de gente que anda descalça e desprotegida de tudo. O que eu posso fazer pra mudar alguma coisa? Isso tem martelado na minha cabeça. Fico tentando achar uma resposta. E torcendo pra encontrar, pra conseguir tranqüilidade no meu coração. 

Dia e noite, ao acordar e antes de dormir, lembro dela e fico pensando: A Clarinha vai ser mãe. Ser mãe é coisa que se é, mas também é coisa que se sente. É impossível uma criança se sentir mãe aos doze anos. É muito injusto. E fico me perguntando: o que vai ser dessas crianças agora? E nem eu não consigo responder minha própria pergunta.

*Clarinha não é seu nome de verdade. 

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